Herbert Marcuse, filósofo alemão radicado nos Estados Unidos, foi um dos nomes centrais da chamada Escola de Frankfurt. Suas análises da sociedade moderna vão além das estruturas políticas e econômicas, avançando sobre as dimensões subjetivas e emocionais do indivíduo. Este texto se propõe a responder como a filosofia de Marcuse pode iluminar os processos de autossabotagem, aquele comportamento silencioso que nos impede de realizar nosso potencial e, às vezes, sequer compreendemos de onde vem.
O contexto da filosofia de Marcuse
Para compreender o olhar de Marcuse sobre autossabotagem, precisamos nos aproximar brevemente dos seus principais conceitos. Em livros como "Eros e Civilização" e "O homem unidimensional", ele fala de uma sociedade que, ao priorizar o consumo, a técnica e o desempenho, reprime desejos autênticos, criando indivíduos conformados mas insatisfeitos.
Sob sua ótica, as estruturas sociais moldam não apenas o comportamento, mas também os desejos e os processos inconscientes. O sistema capitalista, assim, invade até o que sentimos e a forma como enxergamos a própria vida.
Corpos livres, mentes ocupadas, desejos reprimidos.
Neste ambiente, dificilmente reconhecemos nossos próprios desejos. Confundimos satisfação com acúmulo, liberdade com adaptação, vontade com produtividade. Assim, crescemos desconectados de nossa essência.
Autossabotagem: uma armadilha subjetiva
No âmbito psicológico, autossabotagem é o fenômeno em que o sujeito boicota suas metas e sonhos, de forma geralmente involuntária. Ocorre quando repetimos escolhas que nos afastam do que realmente queremos ou precisamos. Pode se manifestar no medo do sucesso, no adiamento crônico, na autocrítica excessiva ou mesmo em hábitos que nos mantêm distantes de viver de modo pleno.
O mais intrigante é que, na visão de Marcuse, autossabotagem não brota apenas de fatores internos, mas é incentivada pela estrutura social. Nossa sociedade, ao impor padrões e expectativas, alimenta o conflito entre o que somos e o que precisamos aparentar ser.

Criamos mecanismos de defesa: negar nossos desejos mais profundos, racionalizar o insucesso, buscar aprovação contínua. Esses processos vivem na fronteira entre o individual e o coletivo.
O homem unidimensional: um retrato da autossabotagem?
Marcuse descreve o sujeito contemporâneo como "unidimensional", alguém que internaliza as regras e padrões impostos pela sociedade sem questionamento. Tal pessoa passa a ver seu próprio valor pelo que consome ou produz, aceitando suas limitações como naturais.
Segundo Marcuse, o homem unidimensional não reconhece seus conflitos internos porque estes já foram "domesticados" pelas pressões externas. A autossabotagem, então, deixa de ser uma culpa exclusivamente pessoal e passa a ser consequência de condicionamento social e cultural profundo.
Como exemplo, se evitamos um avanço profissional por medo de rejeição, podemos estar apenas reproduzindo padrões internalizados desde a infância: de que "não somos bons o bastante", "não merecemos crescer" ou que "é perigoso se destacar". A raiz desses pensamentos não é somente individual, mas também coletiva. Foram cultivadas por discursos, experiências e vivências sociais.
A repressão do desejo e suas consequências
Marcuse retoma conceitos freudianos para afirmar que a repressão dos desejos verdadeiros resulta em sofrimento psíquico, que pode se manifestar como autossabotagem. Na busca por se adaptar ao "dever ser", negligenciamos o "querer ser".
O lado perigoso da autossabotagem é que ela é camuflada, sutil, caminha ao nosso lado como uma voz interna de "realismo" ou "prudência", enquanto, na verdade, serve para nos manter dentro de uma zona de conforto tóxica. Algo como:
- Evitar iniciar projetos novos, pois podem dar errado.
- Insistir em relações desgastadas para não encarar o medo da solidão.
- Aceitar menos do que desejamos, acreditando ser o possível.
- Apagar nossos desejos autênticos para não "causar problema".
Nesses exemplos, o mecanismo é o mesmo: abrir mão de si para se ajustar a um padrão de fora.
Como superar autossabotagem a partir de Marcuse?
Marcuse não nos traz respostas simples, mas propõe um caminho de "libertação do desejo", no qual é preciso reconectar-se com nosso impulso criativo e com a dimensão erótica da existência, indo além da mera repetição dos comandos sociais.
Em nossa experiência, há algumas direções práticas inspiradas por essa perspectiva:
- Reconhecer a origem social de alguns pensamentos limitantes é o primeiro passo. Perguntar-se: "Esse medo é realmente meu ou foi aprendido?" pode revelar muito.
- Resgatar o silêncio criativo, algum tempo livre de demandas externas, permite que desejos autênticos venham à tona.
- Exercitar a consciência crítica sobre padrões de comportamento repetidos, que contradizem nossos objetivos mais importantes.
- Criar práticas internas para fortalecer o self, como meditação, escrita reflexiva, arte ou escuta terapêutica.
- Buscar novos ambientes e convivências onde a autonomia emocional seja incentivada.
Permitir-se mudar é sair do automático e construir novas escolhas.

Devemos lembrar que, para Marcuse, um passo popular em direção à liberdade é desenvolver consciência crítica sobre o porquê sentimos o que sentimos e queremos o que queremos.
Consciência e transformação
O viés essencial que a filosofia de Marcuse traz à autossabotagem é este: a mudança individual só é sólida se submetida à reflexão sobre o contexto social e cultural. Não basta olhar para dentro apenas, é urgente também olhar à volta e questionar, diariamente, quais vozes internas são, de fato, nossas, e quais foram impostas.
Autossabotagem, portanto, na visão de Marcuse, não é fraqueza de caráter, mas sintoma de uma cultura que nos ensina a calar o desejo em nome da sobrevivência, da aceitação e da rotina. Sabendo disso, podemos acolher nossas dificuldades, sermos menos duros conosco e iniciar um caminho de reajuste, mais autêntico, consciente e profundo.
Conclusão
A leitura da autossabotagem à luz da filosofia de Herbert Marcuse amplia nosso campo de visão: não se trata apenas de corrigir hábitos ou pensar positivo. Precisamos criar espaços para o autoconhecimento, desconstruir crenças coletivas e cultivar liberdade interna para desejar, agir e viver de outro modo. O convite é claro: quando buscamos entender a autossabotagem, também estamos questionando a sociedade e os valores que, muitas vezes, a alimentam em nós. Ao trazermos consciência a esse fenômeno, abrimos caminhos para escolhas mais genuínas, integrais e alinhadas ao que realmente importa.
Perguntas frequentes
O que é autossabotagem segundo Marcuse?
Para Marcuse, autossabotagem é um fenômeno em que o indivíduo bloqueia seu próprio desenvolvimento por internalizar regras, padrões e limites impostos pela sociedade. Isso ocorre de maneira inconsciente, por causa da repressão dos desejos autênticos e da adaptação excessiva ao que se espera externamente, levando ao afastamento de si mesmo.
Como a filosofia de Marcuse explica autossabotagem?
A explicação está no conceito de sociedade repressiva e homem unidimensional. A filosofia de Marcuse mostra que a autossabotagem é facilitada por um ambiente que ensina a reprimir desejos e necessidades genuínas. Assim, as pessoas passam a agir contra si mesmas não por escolha racional, mas porque já aprenderam que é assim que se "sobrevive" ou se encaixa.
Quais são exemplos de autossabotagem?
Entre os exemplos mais comuns estão: adiar tarefas importantes mesmo sabendo de suas consequências, desistir de oportunidades por achar que não se é capaz, aceitar situações ou relacionamentos que nos prejudicam por medo da mudança ou de rejeição, e buscar metas que não são genuínas, apenas para agradar outros.
Como evitar a autossabotagem na rotina?
Podemos evitar a autossabotagem ao desenvolver consciência crítica sobre nossos comportamentos e questionar suas origens. Isso inclui reservar momentos de reflexão, buscar reconhecer padrões repetitivos, cultivar práticas de autoconhecimento como meditação ou escrita, e dialogar com outras pessoas que apoiem nossa autenticidade e crescimento.
Marcuse propõe soluções para autossabotagem?
Marcuse aponta caminhos, mas não oferece receitas prontas. Ele sugere a reconexão com desejos autênticos, a liberação da criatividade e o exercício diário de consciência crítica sobre os padrões internalizados. O objetivo é ampliar as possibilidades de escolha, transformando a vida pessoal e coletiva com mais liberdade e autenticidade.
